RX ROMES XAVIERFutebol • Jornalismo • Goiás Romes no futebol
Cidades

Pedras contra o caixão de Leide das Neves: mãe relembrou o horror do sepultamento e José Nelto estava entre os moradores que protestavam contra o enterro

Menina de seis anos morreu após a contaminação pelo Césio-137, em Goiânia. Episódio de 1987 foi marcado por protestos violentos contra o sepultamento. Anos depois, o então vereador apresentou sua versão sobre a participação no ato, enquanto testemunhas relataram outra dinâmica dos acontecimentos. A história de Leide das Neves Ferreira, a menina de seis anos […]

Portal Romes Xavier••4 min de leitura

Menina de seis anos morreu após a contaminação pelo Césio-137, em Goiânia. Episódio de 1987 foi marcado por protestos violentos contra o sepultamento. Anos depois, o então vereador apresentou sua versão sobre a participação no ato, enquanto testemunhas relataram outra dinâmica dos acontecimentos.

A história de Leide das Neves Ferreira, a menina de seis anos que se tornou um dos principais símbolos da tragédia do Césio-137 em Goiânia, também ficou marcada por um dos episódios mais dolorosos ocorridos após sua morte: o protesto de moradores que tentaram impedir seu sepultamento. Em outubro de 1987, quando os corpos da criança e de sua tia, Maria Gabriela Ferreira, chegaram ao Cemitério Parque, moradores se revoltaram contra a realização do enterro no local. Pedras, pedaços de meio-fio e até fragmentos de cruzes foram arremessados durante o tumulto.

Décadas depois, a mãe de Leide, Lourdes das Neves Ferreira, voltou a falar sobre o episódio e relembrou a violência daquele dia. Em entrevista publicada em 2020, contou que estava sob efeito de medicamentos e acompanhava a despedida da filha em meio à confusão. “Eu estava dopada de remédios, mas prestava atenção em tudo. Via as pedras passando, aquele monte de gente”, relatou. Na mesma entrevista, a reportagem identificou José Nelto, então vereador e hoje deputado federal, entre os moradores que protestavam contra o sepultamento.

Em outro depoimento, reproduzido pelo Goiás 24 Horas a partir de uma reportagem do programa Linha Direta, da TV Globo, Lourdes descreveu os objetos lançados durante o protesto: “Jogaram pedra, pedaço de meio-fio, de cruz, tudo que encontravam”. A lembrança da mãe expõe a dimensão da violência enfrentada pela família em um momento que deveria ser de despedida e respeito à memória da criança.

O nome de José Nelto também aparece em uma reportagem histórica publicada pelo Diário da Manhã em 5 de dezembro de 1999, intitulada “Pedras no caminho de Nelto”. Na ocasião, o deputado declarou que não sentia “nenhum remorso” por ter participado do ato público realizado em outubro de 1987. “Tenho a minha consciência tranquila”, afirmou. Na mesma entrevista, fez um desafio a quem pudesse comprovar que havia jogado uma pedra contra o caixão ou ordenado que alguém o fizesse: “Se provarem que eu joguei uma pedra sequer ou tenha mandado alguém jogar contra o caixão, quero que Deus deixe minha mãe, meu pai e meus dois filhos cegos”.

A reportagem do Diário da Manhã também apresentou uma fotografia registrada pelo editor de fotografia Marco Monteiro, na qual Nelto aparece entre os moradores que protestavam. A imagem foi descrita pelo jornal como um registro do protesto contra o sepultamento de Leide e de sua tia. Na avaliação publicada à época, a posição do então vereador levantava questionamentos sobre sua atuação durante a manifestação.

Nelto contestou essa interpretação. Segundo a reportagem, afirmou que tentava conter as pessoas que se aproximavam do veículo que transportava os caixões e declarou que sentiu muito medo naquele momento. Ele tinha 23 anos e exercia seu primeiro mandato como vereador de Goiânia.

Os relatos de testemunhas, entretanto, apresentaram versões diferentes. O fotógrafo Marco Monteiro afirmou que Nelto demonstrava medo quando a Polícia Militar chegou para conter o tumulto. Monteiro também disse não se lembrar de ter visto o então vereador deitar-se no túmulo, gesto que teria sido praticado por pessoas que tentavam impedir o sepultamento.

Já o jornalista Cláudio Pontes, que estava no cemitério a serviço do Diário da Manhã naquele dia, apresentou outro relato. Segundo ele, Nelto teria se deitado no túmulo antes da chegada da Polícia Militar e liderado moradores de setores vizinhos durante o protesto. A reportagem também registrou que alguns participantes arremessaram pedras contra a caminhonete que transportava os caixões, levando o motorista a abandonar momentaneamente o veículo por medo de ser atingido.

Ao justificar a mobilização dos moradores, José Nelto atribuiu o comportamento da população ao desconhecimento sobre os efeitos da contaminação radioativa. Segundo ele, muitas pessoas acreditavam que o Césio poderia provocar uma contaminação generalizada. O deputado afirmou ainda que, se pudesse voltar àquela época, tentaria convencer os moradores de que o sepultamento não representaria riscos à saúde pública.

O episódio permanece como uma das páginas mais dolorosas da história do acidente radiológico de Goiânia. Para Lourdes das Neves, além da perda irreparável da filha, a lembrança do enterro continua associada à violência e ao preconceito enfrentados pela família. A controvérsia sobre a atuação de José Nelto naquele dia permanece registrada em depoimentos, fotografias e na própria reportagem publicada pelo Diário da Manhã.

Autoridade documentadaRomes Xavier no ecossistema de conhecimento de Goiás